BOM NATAL E FELIZ 2022

Com grande alegria, os cânticos dos anjos nos arredores de Belém que assinalaram o nascimento de Jesus Cristo, já lá vão mais de dois milénios, anunciaram o início de um reino, ou seja, de uma ordem baseada na verdade, na fraternidade, na justiça e na paz. Paz que não significa apenas ausência de guerras, lutas ou conflitos, mas a instituição pró-ativa das bases da felicidade e da prosperidade para toda a humanidade, passando pelo país, pela cidade e pela empresa de cada qual. 

Como nos anos anteriores, escolho temas da doutrina social da Igreja para concretizar esta mensagem natalícia de felicidade e de prosperidade. Apoio-me num documento sobre o Trabalho e os Trabalhadores que, no dia 17 de junho de 2021, o Papa Francisco enviou à 109ª Conferência Internacional do Trabalho, em Genebra. (Texto com 6 páginas, acessível no site da Santa Sé, em Francisco> Mensagens> Mensagens Pontifícias >2021). 

Depois de agradecer o convite para apresentar uma mensagem, o Papa Francisco disse que a proteção dos trabalhadores e dos mais desprotegidos só pode ser garantida respeitando os direitos fundamentais, incluindo o direito de organização. Por outras palavras, e muito oportunamente, confirmou que participar num sindicato é um direito. 

Acrescentou que nesta fase histórica, o movimento sindical enfrenta dois desafios muito importantes. O primeiro é o da profecia, ligada à própria natureza dos sindicatos, e à sua vocação mais autêntica. Deste modo, à semelhança dos profetas bíblicos, os sindicatos dão voz àqueles que a não têm, denunciam os que desnudam os poderosos que calcam os direitos dos trabalhadores mais vulneráveis, ou dos que defendem a causa dos estrangeiros, dos últimos e dos rejeitados. 

Continuando, exortou os sindicatos dos trabalhadores a que também protejam os que não têm trabalho, e os que são excluídos dos direitos e da democracia. E assinalou que a falta de proteção social para os trabalhadores da economia informal e suas famílias os faz particularmente vulneráveis, pois não podem contar com a proteção oferecida pelos regimes de assistência social destinados ao combate à pobreza.

Inserindo o papel dos sindicados e dos empreendedores no compromisso da Igreja e dos cristãos, sublinhou ser missão fundamental da Igreja convocar todos a trabalhar em conjunto – governos, organizações multilaterais e sociedade civil – para servir e cuidar do bem comum e para garantir a participação de todos nesse esforço. Assim, ninguém deve ser deixado para trás num diálogo para o bem comum em que o principal objetivo é consolidar a paz e a confiança entre todos. E os mais vulneráveis – jovens, migrantes, comunidades indígenas, pobres – não podem ser excluídos de um diálogo que também deve reunir governos, empresários e trabalhadores. E acrescenta ser igualmente essencial que todas as crenças e comunidades religiosas se envolvam.

E o Papa Francisco insistiu afirmando que a recuperação de maior atividade económica, no final da ameaça do Covid-19, deve evitar fixações passadas sobre lucro, isolamento e nacionalismo, consumismo cego ou a negação de evidências que apontem para a discriminação na nossa sociedade de nossos irmãos e irmãs “descartáveis”. Pelo contrário, deve procurar soluções que nos ajudem a construir um novo futuro baseado em condições de trabalho decentes e dignas, que sejam resultado da negociação coletiva e que promovam o bem comum, numa base que torne o trabalho um componente essencial da nossa preocupação com a sociedade e a criação.

Recordou ainda que a Igreja tem defendido a posição de que a remuneração pelo trabalho realizado não deve satisfazer apenas as necessidades imediatas e atuais dos trabalhadores, mas dar-lhes também a oportunidade de fazer poupanças para o futuro de suas famílias. e investimentos que lhes possam proporcionar uma margem de segurança para o futuro. E acrescentou que o trabalho e, portanto, os trabalhadores, devem contar com garantias, apoio e reforço para estarem protegidos do “jogo” da desregulamentação, que as normas legais devem ser redirecionadas para o crescimento do emprego, do trabalho digno e dos direitos e deveres da pessoa humana, instrumentos necessários para o bem-estar, para o desenvolvimento humano integral e para o bem comum.

Pedindo aos líderes políticos e às pessoas que trabalham em governos que se inspirem sempre na forma de amor que é a caridade política, afirmou que o compromisso de organizar e estruturar a sociedade também é um ato indispensável de caridade. E esclareceu que sendo caridade acompanhar uma pessoa que está sofrendo, também é caridade tudo o que se consegue, mesmo sem estar em contato direto com essa pessoa, para mudar as condições sociais que estão na origem do seu sofrimento.

Espero ter motivado os leitores para conhecerem toda a mensagem e, principalmente, para satisfazerem a sua sede de verdade e justiça, seguindo sempre os princípios da doutrina social da Igreja que o Papa Francisco tanto se esforça por divulgar. 

Que os votos de bom e santo Natal e de feliz Ano Novo, tão generalizadamente trocados nesta época, traduzam a nossa adesão à mensagem de amor sem limites que Jesus Cristo nos veio trazer, e que, para além de nos exigirem maior compromisso individual de amor e serviço ao próximo, também nos induzam a mais intervenção política. 

António Leite Garcia
do Forum Abel Varzim