BOM NATAL E FELIZ 2021

No fim de um ano marcado pelas múltiplas mudanças induzidas pela pandemia covid-19, continua a ser oportuno prestar atenção à mensagem que nos é transmitida pelo nascimento de Jesus, sintetizada nos cânticos dos anjos nos arredores de Belém. Cânticos que, além de manifestarem uma grande alegria, anunciam o reino de Deus, ou seja, uma ordem de felicidade, justiça e paz, a que devemos aderir e propagar. 

Muito pertinentemente nestes tempos de pandemia, o Papa Francisco, através da sua última encíclica Fratelli Tutti, de que escolhemos alguns pontos para citar nesta nota, recorda que esta nova ordem não se consegue sem uma grande fraternidade. Salienta que esta fraternidade, para além da sua dimensão pessoal, também tem uma dimensão cívica, sempre devendo ser vivida numa perspetiva de colaboração e não de competição, num ambiente onde a lógica de reciprocidade e de partilha prevaleça sobre a do ter e do poder. E esclarece que não se trata de negar a realidade do poder, mas de o situar no nível justo, entendendo-o como um serviço. Tudo isto de forma proativa e preventiva, enquadrada por legislação justa e, mais   este tema, o Papa Francisco lembra que todos os compromissos decorrentes da doutrina social da Igreja derivam da caridade que é – como ensinou Jesus – a síntese de toda a Lei divina. Lei que exige reconhecer que o amor, cheio de pequenos gestos de cuidado mútuo, também é civil e político, manifestando-se em todas as ações que procuram construir um mundo melhor. Concretizando, afirma que o amor não se expressa só nas relações íntimas e próximas, mas também nos relacionamentos sociais, económicos e políticos. Sintetizando, diz que quando o bem dos outros está em jogo, não bastam as boas intenções, é necessário atuar efetivamente para se obter aquilo de que eles e seus países necessitam para o realizar. 

Continuando nesta linha, a Fratelli Tutti afirma ser indispensável uma política económica proativa, visando promover uma economia que favoreça a diversificação produtiva e a criatividade empresarial, aumentando os postos de trabalho em vez de os reduzir. Acrescenta que sem formas internas de solidariedade e de confiança mútua, o mercado não se dá conta de que uma indispensável redistribuição não é suficiente para resolver o problema das desigualdades existentes na sociedade. E insiste, dizendo que, sujeito a uma especulação financeira, tendo a ganância de lucro fácil como objetivo fundamental, contribui para agravar as desigualdades, em vez de as atenuar. 

A fragilidade dos sistemas políticos e sócio económicos mundiais, perante a pandemia, evidenciou que nem tudo se resolve com a liberdade de mercado e que, para além de ser necessário reabilitar uma política saudável que não esteja sujeita aos ditames das finanças, devemos voltar a pôr a dignidade humana no centro.  E sobre este pilar devem ser construídas as estruturas sociais alternativas de que precisamos. 

Recordando que a verdade é uma companheira inseparável da justiça e da misericórdia, o Papa Francisco esclarece que o que chamamos «verdade» não se reduz à agregação dos factos comunicados pelos sistemas de informação. É a busca dos fundamentos mais sólidos que estão na base das nossas opções, e também das nossas leis, o que implica aceitar que a inteligência humana pode ir além das conveniências do momento atual e captar algumas verdades que não mudam, que já eram verdade antes de nós e sempre o serão. 

Acrescenta que a busca da verdade pressupõe o desenvolvimento das ciências e a sua contribuição insubstituível para encontrar os percursos concretos e mais seguros para alcançar os objetivos desejados. Prossegue afirmando que, quando é a cultura que se corrompe, deixando de reconhecer qualquer verdade objetiva ou quaisquer princípios universalmente válidos, as leis só se poderão entender como imposições arbitrárias e obstáculos a evitar, pelo que temos de nos exercitar em desmascarar as várias modalidades de manipulação, deformação e ocultamento da verdade nas esferas pública e privada, sendo necessário verificar, continuamente, se as formas atuais de comunicação nos orientam efetivamente para o encontro generoso, a busca sincera da verdade íntegra, o serviço, a aproximação dos últimos e o compromisso de construir o bem comum. E conclui, lembrando que o relativismo não é a solução, sendo necessário evitar que, sob o véu duma presumível tolerância, os valores morais sejam interpretados pelos poderosos segundo as conveniências da hora. 

Que os votos de bom e santo natal e de feliz ano novo, tão generalizadamente trocados nesta época do ano, traduzam a nossa adesão à mensagem de amor sem limites que Jesus Cristo nos veio trazer, e se concretizem na vivência e na prática da Doutrina Social da Igreja, continuadora da sua missão na Terra.

António Leite Garcia
do Forum Abel Varzim